A entrega foi, talvez, a parte mais difícil de toda a minha jornada. Durante muitos anos, eu havia aprendido a investigar, medir, comparar, compreender e procurar uma explicação antes de aceitar qualquer conclusão. Mas chegou um momento em que três perguntas simples desmontaram a segurança que eu ainda depositava em mim mesmo. Eu já havia errado na vida? Sim.
Eu já havia tido absoluta convicção de que alguma coisa daria certo e, ainda assim, estava errado? Sim. E eu continuaria errando no futuro? Também sim. Se eu era capaz de reconhecer os meus próprios limites, como poderia transformar o meu entendimento na medida final da verdade? Foi ali que alguma coisa começou a mudar.
Jesus já não cabia dentro das categorias que eu havia usado para compreender o mundo, e talvez o problema estivesse justamente na minha tentativa de fazê lo caber. Comecei então a orar de outra maneira. Passei a jejuar, a buscar silêncio e a pedir com sinceridade que, se existisse uma realidade acima daquilo que minha razão conseguia alcançar, ela viesse ao meu encontro.
Houve períodos em que passei dias apenas com água e oração, não tentando provar alguma coisa a Deus, mas tentando esvaziar o ruído suficiente para conseguir ouvi lo. Aos poucos, comecei a despertar espontaneamente durante a madrugada, muitas vezes por volta das três horas, com uma vontade difícil de explicar de simplesmente conversar com Deus.
Foi nessas madrugadas que comecei a desenvolver comunhão com alguém sobre quem eu já havia estudado muito, mas que ainda precisava conhecer de outra maneira. Eu conhecia textos, profecias, histórias, doutrinas e interpretações. Conhecia a narrativa de Gênesis ao Apocalipse. Mas percebi que conhecimento sobre Deus e relacionamento com Deus eram coisas profundamente diferentes.
A entrega, para mim, parecia uma espécie de morte, não a morte da razão, da personalidade ou da consciência, mas da necessidade de controlar todas as respostas antes de confiar. Em uma dessas fases tive um sonho que permaneceu profundamente marcado em mim. Eu via uma onda gigantesca se aproximando da casa onde estava e sabia que não havia para onde fugir.
Curiosamente, não senti desespero. Apenas uma paz profunda e a certeza de que, se aquele fosse o fim, eu estaria indo ao encontro do meu Criador. Quando acordei, senti uma alegria difícil de traduzir, como se um medo muito antigo tivesse perdido parte do seu poder sobre mim.
A partir dali, oração, entrega e comunhão deixaram de ser conceitos religiosos e começaram a fazer parte da minha vida. O batismo tornou se a expressão pública dessa decisão.
Escolhi fazê lo no mar, ao ar livre, diante de outras pessoas, porque queria que aquele momento representasse de maneira simples aquilo que estava acontecendo dentro de mim: uma vida que não desejava mais apenas estudar o Evangelho, mas vivê lo. Depois disso, comecei a perceber mudanças que não vinham apenas de novas informações.
Desejos, medos, prioridades e até a maneira como eu enxergava a mim mesmo começaram a encontrar outro lugar.
Muitas perguntas que a filosofia havia deixado abertas passaram a adquirir sentido, muitas feridas que eu havia aprendido a compreender pela psicologia passaram também a ser vistas sob a perspectiva do perdão, e muitas práticas que eu havia encontrado na religião perderam importância diante da simplicidade da graça.
Foi quando compreendi, de maneira pessoal, que o Evangelho não era apenas mais uma ferramenta acrescentada à minha caixa. Ele havia mudado o lugar de onde eu passaria a usar todas as outras. Eu não precisava abandonar a razão, o conhecimento, a psicologia, a filosofia ou tudo aquilo que havia aprendido. Precisava apenas deixar de colocar a mim mesmo no centro de todas essas coisas.
Foi assim que a investigação se transformou em relacionamento, o conhecimento em confiança e a busca em entrega.
E foi dessa transformação que nasceu em mim o desejo de contar esta história.